Flexibilidade cognitiva: a habilidade de “desaprender” 28 de maio de 2026 •

Flexibilidade cognitiva: a habilidade de "desaprender"

Flexibilidade cognitiva: a habilidade de “desaprender”

Existe uma pergunta que ninguém faz em processos seletivos, mas que vai definir quem se mantém relevante nos próximos anos: você consegue abandonar o que já sabe?

Você provavelmente está se perguntando qual a necessidade de esquecer alguns conhecimentos – entenda abaixo.

Por que desaprender é mais difícil do que aprender

O cérebro humano resiste a abandonar métodos que já funcionaram. Quando alguém aprende a resolver um problema de determinada forma e essa abordagem deu resultado, ela vira um atalho cognitivo. 

Rápida, confortável e automática. Quando o contexto muda e aquele método já não serve, a tendência natural é forçar a antiga solução em um novo problema, o que os psicólogos chamam de “functional fixedness”.

No mercado de trabalho, isso aparece o tempo inteiro. Por exemplo, aquele profissional que insiste em fazer relatórios iguais porque sempre funcionou, mesmo tendo à disposição ferramentas que reduziriam o trabalho à metade. 

O analista que resiste a usar IA em processos de pesquisa porque “prefere fazer do zero”. O estagiário que trata uma nova ferramenta como ameaça à competência que acabou de desenvolver.

A resistência não é preguiça, mas sim neurológica. E reconhecer isso é o primeiro passo para superá-la.

O que o mercado chama de flexibilidade cognitiva

Flexibilidade cognitiva é a capacidade de transitar entre diferentes formas de pensar, adaptar estratégias quando o contexto muda e encarar a própria ignorância sem que isso te paralise. 

Essa é uma habilidade listada pelo mesmo relatório do WEF entre as dez mais valorizadas por empregadores globais, junto com pensamento analítico, criatividade e resiliência.

Em termos práticos, um estudante com boa flexibilidade cognitiva:

  1. Usa uma nova tecnologia sem precisar de convicção prévia de que ela é melhor. Assim, ele testa, avalia e ajusta seus afazeres;
  2. Muda de abordagem quando percebe que a atual não está funcionando, sem interpretar isso como fracasso;
  3. Consegue separar “método que aprendi” de “identidade profissional”, abrindo espaço para a inovação.

Esse terceiro ponto é o mais difícil. Quando alguém passa anos desenvolvendo uma expertise, ela vira parte de como essa pessoa se enxerga. 

Por isso, ao questionar o método, inconscientemente, se está duvidando da pessoa. Assim, desenvolver flexibilidade cognitiva passa por desfazer esse vínculo.

IA como teste de flexibilidade em tempo real

Em menos de três anos, ferramentas de IA passaram de curiosidade tecnológica para recurso de trabalho cotidiano em áreas que vão de marketing a direito, de design a análise de dados.

O WEF também aponta que 63% dos empregadores citam o gap de habilidades como a principal barreira à transformação dos seus negócios, acima de regulação, cultura e capital. 

E quando se olha para os dados de treinamento, apenas 50% das empresas conseguiram qualificar seus times em estratégias de longo prazo. 

Outros 11 em cada 100 trabalhadores precisarão de requalificação, mas provavelmente não terão acesso a ela.

Isso cria uma janela. Os jovens que entram no mercado agora, especialmente os que estão em estágio, têm a vantagem de não ter décadas de métodos consolidados para desconstruir. 

A curva de adoção de novas tecnologias, para quem ainda está em formação, é maior. Mas só se houver disposição ativa para usá-la.

Como desenvolver essa habilidade ainda na graduação?

Se você quer essa habilidade ativa, algumas práticas concretas fazem diferença, como:

Expor-se a projetos fora da área de formação 

Quem está em Administração e trabalha num projeto de comunicação aprende a pensar em frameworks que não são os seus. 

Esse atrito cognitivo, quando bem mediado, é exatamente o que desenvolve flexibilidade.

Questionar o “por que fazemos assim” em vez de apenas executar

No estágio, perguntar a lógica por trás de um processo é mais formador do que seguir o processo. 

Quem entende o motivo consegue adaptar o método quando o contexto muda.

Usar IA como parceiro de trabalho, não como ameaça 

A inteligência artificial não substitui quem pensa, mas quem executa tarefas repetitivas sem pensar. 

Quem aprende a usar essas ferramentas para ampliar a própria capacidade analítica sai na frente.

O papel do estágio nessa formação

O estágio é, na prática, o primeiro ambiente onde o estudante é exposto a uma realidade que não está nos livros. 

Isso já seria suficiente para desenvolver flexibilidade, mas só se a empresa e o estudante entenderem o estágio como espaço de aprendizado real, não como mão de obra barata.

 

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